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Jejuar ou não? Em pleno Ramadão, jogadores muçulmanos vivem dilema no Mundial

Rio de Janeiro, 27 jun (EFE).- O início dos oitavos de final do Campeonato do Mundo e do nono mês do calendário muçulmano coincidem neste sábado e geram um sério dilema aos jogadores das seleções que conseguiram passar a fase de grupos.

O mês sagrado do Ramadão, que este ano irá até 28 de julho, 15 dias depois da final do Mundial, impõe um restrito jejum a todos os muçulmanos, que, para se purificarem, devem abster-se de comer, beber, fumar e manter relações sexuais.

No entanto, essa restrição costuma ser respeitada apenas durante o dia, já que os muçulmanos costumam alimentar-se antes do amanhecer e após o entardecer durante o Ramadão.

Os jogos do Mundial, por outro lado, serão disputados entre as 13h e 17h de Brasília, ou seja, num ambiente de temperatura e humidade elevadas.

O dilema sobre jejuar ou não afetará principalmente a seleção da Argélia, que se classificou em segundo lugar no grupo H e deve preparar um plano B para evitar um adversário extra nas oitavas: a desidratação.

De acordo com a filosofia islâmica, os seus fiéis também devem rezar cinco vezes por dia durante o mês do Ramadão, outro fator que pode prejudicar a preparação e o rendimento dos jogadores muçulmanos no Mundial.

No entanto, este panorama não parece preocupar o técnico da França, Didier Deschamps, que preferiu ressaltar o seu profundo respeito pela diversidade religiosa e deixar a palavra final para os seus jogadores.

"Não estou muito preocupado porque esse não é um problema de agora, e cada um deverá adaptar-se à situação", declarou Deschamps após assegurar a classificação da sua seleção, que conta com dois muçulmanos: o atacante Karim Benzema, de origem argelina, e o meia Moussa Sissoko, de origem malinesa.

Se a seleção francesa corre risco de perder dois dos seus principais jogadores, a Nigéria, a sua adversária nos oitavos de final, conta com um elevado número de muçulmanos.

A data do mês sagrado varia a cada ano, já que o calendário islâmico segue o calendário lunar. Apesar de ganhar evidência agora, esse problema relacionado com o jejum de jogadores não chega a ser uma novidade.

Quando treinava o Inter de Milão, no final de 2009, o treinador português José Mourinho sentia-se frustrado com o desempenho do médio ganês Sulley Muntari e não hesitou em atribuir esse facto ao jejum do jogador. No entanto, as suas declarações geraram uma grande revolta no mundo islâmico.

"Nunca comprei e jamais comprarei jogadores que tenham este tipo de problema", declarou na ocasião o presidente do Lazio, Claudio Lotito, que afirmou que "um mês inteiro sem poder comer e beber durante mais de 10 horas diárias não combina muito bem com as partidas do domingo".

Para o chefe da equipa médica da FIFA, Jiri Dvorak, os jogadores não devem ter a condição física prejudicada.

"Realizamos exaustivos estudos com os jogadores durante o Ramadão, e a conclusão foi que, se for respeitado de maneira apropriada, o jejum não resultará numa redução nos rendimentos físicos dos jogadores", declarou Dvorak.

No entanto, essa opinião não é compartilhada pelo médio alemão Mesut Özil, de origem turca. Segundo ele, o consumo de água e alimentos é necessário para manter a sua condição física de um modo geral e não só nos dias de jogos.

"O Ramadão começa no sábado, mas eu não poderei cumprí-lo porque tenho que trabalhar", afirmou o jogador em entrevista esta semana.

Neste caso, o Islão também abre exceções para o jejum, como o caso das mulheres grávidas, das crianças e adultos com problemas mentais, entre outras exceções.

Quem precisa de fazer viagens longas ou de trabalho também costuma ser liberado. Para os muçulmanos, o Ramadão não é simplesmente a realização do jejum, mas sim um período para estender a sua devoção através de atos de caridade e doação.

Isto pode explicar a atitude do ganês Muntari, que foi visto nas ruas de Maceió a dar autógrafos e dinheiro aos moradores da região.

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